domingo, 8 de novembro de 2009
+ d Frege, que faz bem!
http://www.cfh.ufsc.br/~braida/kernsatzezurlogik.pdf
http://www.cfh.ufsc.br/~braida/fregelogik1897.pdf
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terça-feira, 2 de junho de 2009
O conceito de conceito em Friedrich G. Frege
§ 26. Distingo o objetivo do palpável, espacial e efetivamente real. O eixo da Terra e o centro da massa do sistema solar são objetivos, mas prefiriria não chamá-los de efetivamente reais como a própria Terra. Chama-se frequentemente o equador de linha imaginária; mas seria falso chamá-lo de linha imaginada; ele não nasceu do pensamento, não é produto de um processo mental, mas é apenas conhecido, apreendido pelo pensamento. Se o tornar-se conhecido fosse gênese não poderíamos dizer dele nada de positivo no que concerne ao período anterior a esta suposta gênese.
.... [representações espaciais ] … Nelas é objetivo o que é conforme a leis, conceitual, ajuizável, o que se deixa exprimir em palavras. O puramente intuível não é comunicável.
...
Assim, entendo por objetividade uma independência com respeito a nosso sentir, intuir, representar, ao traçado de imagens internas a partir de lembranças de sensações anteriores, mas não uma independência com respeito à razão; pois responder à questão do que são as coisas independentemente da razão significa julgar sem julgar, lavar-se e não se molhar.
§ 27. Representação em sentido subjetivo é aquilo a que se referem as leis psicológicas da associação; sua natureza é sensível, figurativa. Representação em sentido objetivo pertence à lógica, sendo essencialmente não sensível, embora a palavra que significa uma representação objetiva frequentemente carregue consigo também uma subjetiva, que não é contudo seu significado. A representação subjetiva, na maioria dos casos, é nitidamente diferente em diferentes pessoas, a objetiva é a mesma para todas. As representações objetivas podem-se classificar em objetos e conceitos. Para evitar confusão, empregarei “representação” apenas em sentido subjetivo. Kant, por ter associado a esta palavra ambos os significados, emprestou a sua teoria uma coloração muito subjetiva, idealista, e dificultou o discernimento de sua verdadeira concepção. A distinção feita aqui é tão legítima quanto aquela entre psicologia e lógica. Pudessem elas sempre ser mantidas rigorosamente distintas!
§46. […] Se observando o mesmo fenômeno exterior posso dizer de modo igualmente verdadeiro: “Isto é um grupo de árvores” e “isto são cinco árvores”, ou “aqui há quatro companhias” e “aqui há 500 homens”, o que varia não é o objeto singular nem o todo, o agregado, mas sim minha maneira de denominar. No entanto, isto é apenas índice da substituição de um conceito por outro. Impõe-se assim, […], que a indicação numérica contém um enunciado sobre um conceito. É i qye fuca talvez mais claro no caso do número 0. Se digo: “Vênus tem 0 luas”, não há absolutamente nenhuma lua ou agregado de luas sobre o que algo se pudesse enunciar; mas ao conceito “lua de Vênus” atribui-se deste modo uma propriedade, a saber, a de não subsumir nada.
§47. Que uma indicação numérica expresse algo fatual, independente de nossa apreensão, pode surpreender apenas quem tome o conceito por algo subjetivo, como a representação. Mas esta concepção é falsa. Se subordinamos, por exemplo, o conceito de corpo ao de pesado, ou o de baleia ao de mamífero, assertamos algo objetivo. Ora, se os conceitos fossem subjetivos, também a subordinação de um a outro, enquanto relação entre eles, seria subjetiva, como o é uma relação entre representações. É certo que à primeira vista a proposição “Todas as baleias são mamíferos” pareça tratar de animais; mas se perguntamos de que animais se está falando, não se pode indicar nenhum em particular. Posta uma baleia diante de nós, nossa proposição não afirmará nada a seu respeito. Não se poderia deduzir que o animal em questão fosse mamífero sem admitir a proposição de que é uma baleia, o que nosssa proposição não implica. De modo geral, é impossível falar de um objeto sem de alguma maneira designá-lo ou nomeá-lo. A palavra “baleia”, porém, não nomeia nenhum ser singular. ....
§49. [...] comete o erro de supor que o conceito apenas possa ser obtido diretamente por abstração a partir de vários objetos. Pelo contrário, pode-se também chegar a um conceito partindo-se das notas características; e neste caso é possível que nada caia sob ele. Se isto não acontecesse, nunca se poderia negar a existência, e assim também a afirmação de existência perderia conteúdo.
§51. [...]Quanto a um conceito, a questão é sempre a de saber se algo cai sob ele, e o quê. Quanto a um nome próprio, questões como esta são desprovidas de sentido. Não devemos nos deixar enganar pelo fato de a linguagem usar nomes próprios, por exemplo Lua, como termos conceituais, e vice-versa; apesar disto a diferença subsiste.
§53. Por propriedades que se enunciam de um conceito entendo naturalmente não as notas características que compõem o conceito. Estas são propriedades das coisas que caem sob o conceito, não do conceito. Assim, retângulo não é uma propriedade do conceito “triângulo retângulo”; mas a proposição de que não existe triângulo retângulo retilíneo equilátero enuncia uma propriedade do conceito “triângulo retângulo retilíneo equilátero”; ela atribui-lhe o número zero.
[ ....]
Também seria falso negar que a existência e a unicidade pudessem, em alguns casos, ser notas características de conceitos. Elas apenas não são notas dos conceitos a que poderiam ser atribuídas conforme a sugestão da linguagem. Por exemplo, se todos os conceitos sob os quais cai um único objeto forem reunidos sob um conceito, a unicidade será nota característica deste conceito. Cairia sob ele, por exemplo, o conceito “lua da Terra”, mas não o corpo celeste assim chamado. Pode-se pois fazer um conceito cair sob outro superior, ou, por assim dizer, sob um conceito de segunda ordem. Não se deve porém cofundir esta relação com a de subordinação.
§54. O conceito “letra da palavra Zahl” delimita o z em oposição ao a, este em oposição ao h, etc... O conceito “sílaba da palavra Zahl” destaca a palavra como um todo e como algo indivisível, no sentido de que suas partes não caem mais sob o conceito “sílaba da palavra Zahl”. Nem todo conceito é desta natureza. Podemos decompor, p. ex., o que cai sob o conceito de vermelho de diversas maneiras, sem que as partes deixem de cair sob ele. A um tal conceito não convém nenhum número finito.
§ 70. O conceito relacional pertence pois, como o simples, à lógica pura. Não entra aqui em consideração o conteúdo particular da relação, mas tão-somente sua forma lógica. E o que desta se puder enunciar será analiticamente verdadeiro e conhecido a priori. Isto vale tanto para os conceitos relacionais como para os demais.
§ 74. Que um conceito contenha uma contradição, nem sempre é tão evidente que dispense investigação; para investigá-lo é preciso antes possuí-lo e tratá-lo logicamente como outro qualquer. Tudo o que, do ponto de vista da lógica e no que concerne ao rigor da demonstração, se pode exigir de um conceito é sua delimitação precisa, que fique determinado, para cada objeto, se cai ou não sob ele. Ora, esta exigência é estritamente satisfeita por conceitos que contêm contradição, como “diferente de si próprio”; pois sabe-se a respeito de todo objeto que ele não cai sob este conceito.
Emprego a palavra ‘conceito’ de maneira a ser
“a cai sob o conceito F”
a forma geral de um conteúdo ajuizável que trate de um objeto a e permaneça ajuizável substituindo-se a pelo que quer que seja.
§88. Kant parece conceber o conceito determinado por características coordenadas; esta é contudo uma das maneiras menos fecundas de formar conceitos. Passando em revista as definições dadas acima, dificilmente encontrar-se-á uma desta espécie. O mesmo vale para as definições realmente fecundas em matemática, por exemplo a de continuidade de uma função. Não temos aí uma série de características coordenadas, mas uma ligação mais íntima, eu diria orgânica, de determinações. Pode-se representar intuitivamente a diferença por uma imagem geométrica. Representando-se os conceitos (ou suas definições) por regiões de um plano, ao conceito definido por características coordenadas corresponde a região comum a todas as regiões associadas às características, ela será circunscrita por parte de seus limites. No caso de uma tal definição trata-se – para falar por imagens – de empregar as linhas já dadas de maneira nova a fim de delimitar uma região. Mas não aparece aí nada essencialmente novo. As determinações fecundas de conceito traçam limites que absolutamente ainda não haviam sido dados. O que deles se pode concluir, não é possível antever; não se tira simplesmente da caixa o que nela se havia posto. Estas consequências ampliam nosso conhecimento e dever-se-ia considerá-las como sintéticas; no entanto, podem ser demonstradas de maneira puramente lógica, sendo analíticas. Estão de fato contidas nas definições, mas como a planta na semente, e não como a viga em uma casa. Frequentemente são necessárias várias definições para demonstrar uma proposição, que consequentemente não está contida em nenhuma particular, seguindo-se contudo de todas em conjunto, de maneira puramente lógica.
§ 89. Devo também contradizer a generalidade da afirmação de Kant: sem a sensibilidade nenhum objeto nos seria dado. O zero e o um são objetos que não nos podem ser dados sensivelmente. Mesmo aqueles que consideram os números menores como intuíveis devem contudo conceder que nenhum número maior que 100010001000 lhes pode ser dado intuitivamente, e que apesar disto sabemos muito a seu respeito. Talvez Kant tenha empregado a palavra “objeto” em sentido um tanto diferente; mas neste caso o zero, o um, nosso ∞1, ficam fora de toda consideração, pois conceitos, também não o são, e Kant requer qeu mesmo aos conceitos se junte um objeto na intuição.
§ 95. Rigorosamente, apenas é possível estabelecer a ausência de contradição em um conceito demonstrando-se que algo cai sob ele. O inverso seria um erro.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
O que é um conceito?
Um modo de compreender o que é um conceito é tomá-lo como um plexo de implicações entre diferenças. Dadas as diferenças, algumas têm relações de implicação: pressuposição, consequência, fundação, envolvimento, analogia, etc. Um esquema que fixa essas relações é um conceito, o qual pode ser visto como uma regra, embora as relações entre as diferenças sejam independentes de nosso arbítrio. Por isso mesmo, não é fácil estabelecer um conceito, em geral são várias as tentativas até se poder falar "no" conceito X. Mas uma vez fixado um, instaura-se uma rede de implicações, de pressuposições para a sua aplicação e de consequências de seu uso. Nem sempre essa rede de implicações é explícita, e jamais ela se esgota, pois para cada novo conceito introduzido já estão fixadas certas relações de implicação e elas não podem ser alteradas. Uma vez dados dois conceitos, as suas relações de implicação, de anterioridade lógica, de dependência quanto à ordem de definibilidade, de ordem de aplicação já de antemão estão vigindo. Todavia, ainda resta obscuro como isso se dá. Há que se investigar mais.